quinta-feira, 9 de abril de 2009

Grandes descobertas

Para além das nozes californianas e dos baldes de iogurte de baunilha do Lidl, há os pacotes de muesli.

O melhor dos muesli são as bananas secas.
(o pior são as passas)
Os muesli comem-se com iogurte natural.
Às vezes também sem mais nada.
Ciclicamente, mergulho bem fundo à cata de bananas.
Por causa da serotonina.

Esta noite sou uma revolvedora de cereais.
Em busca das bananas perdidas.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Estação do Oriente

Vamos morar numa cabana num lago na Ásia.
Seremos amantes indiscretos e a rodear-nos teremos montanhas rochosas que vão abafar os teus suspiros e as minhas gargalhadas.
Vamos comer com as mãos ou com os pés e boiar durante uma boa parte do dia sem pensar no grande nada, só seguir as nuvens.
E tu podes dar-me de presente um paradoxo: a ternura de um trompete a soprar música ao meu coração.
E eu vou ter olhos em bico que me farão parecer bastante enigmática. E poderei dar-te os nossos bebés em gritos silenciosos e eles serão gordos e rosados, cheios de saúde e de expectativas.
Vamos viver violentamente um amor calmo.

Um dia, se me chateares muito, empurro-te à traição e vais conversar com os peixinhos.

Este é o meu primeiro post sobre viagens. Talvez se sigam outros.

Parabéns

Fizeste anos e eu lembrei-me de nós.

Quando foste uma fada, vestida de branco e de varinha em riste e eu de punk, a levantar-te a saia.
Quando achava que ser punk era vestir-me de gangas com os óculos de sol da minha Mãe.
E lábios às cores.
Vermelho e preto.

Quanto tempo já passou desde que te obriguei a ir correr no parque de raquete em punho?
Atrás de rapazes.

Lembrei-me de nós.

Quando tu só sabias assobiar ao contrário.
Para dentro.

(Hoje assobiamos no escuro)

Eu a queixar-me de não gostares de gatos.
E tu, anos depois, a co-habitar.

- Mas se elas fugirem, nem penses que pego nelas.

Do teu livro preferido:
- Ariana, rapariga russa.


O teu passatempo inconfessável aos 8 anos:
-Passar a ferro.

E que já gostaste de novelas venezuelas dobradas.
- Estrelinha, a pobre coitada que cegou.

Lembrei-me de nós agora.

Eu em cinzentos.
Desintegrações cíclicas mensais.
Tu mais preto e branco.

- Massa com atum.
Na cozinha.

Dos ajustes da amizade:
- Eu aprendo a emprestar livros se tu aprenderes a emprestar filmes.

O teu risinho mordaz.
-Precisas de um harém?

O nosso riso junto quando me declarei:
- Em fase pró-homem.

Lembrei-me de ti adolescente enlevada.
Em Paris, à procura da rua onde o Jean-Paul Belmondo foi assassinado com um tiro no fundo das costas.
À queima-roupa.

- Aquela conversa de cama é maravilhosa.

Teremos tempo para chegar aos sete amantes?
Um dia vamos ter uma conversa igual.

Entretanto, tens sempre os meus chás de tudo.
Trazes-me supremas de chocolate?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Aviso à navegação

Hoje pensei na nossa conversa. Peri-patética.

-Não me faças promessas dessas.
Arranjas sarilhos na meia-idade.

Se quiseres, casamo-nos.

- Olha o que te digo.
Não te deixes enganar por ameaças de candura.

Ramos de flores aos Domingos.

- Abre o olho.
Não sou nenhum pássaro caído do ninho.

Flores silvestres?

- Desengana-te.
Eu tropeço mas não caio.

Piqueniques.

- Sou fora-da-lei.
Quase ruim.

Com sorvetes?

-Faço parte de um bando.
Um bando à parte.

330

"- Ser progressista é ser verdadeiramente um homem. E ser um homem verdadeiro é ser forte, comer bem, digerir bem, fornicar bem.
- De quem é essa opinião?
- Minha, naturalmente.
- Julguei que fosse a de um cavalo."

Vergílio Ferreira, Pensar.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Fruta da época

A situação é esta:
Decidi mudar.

Troquei a noisette por nougatine.
Bastam 30 minutos.
Tom sobre tom.

É mesmo verdade o que dizem das mulheres e os cabelos?

Tom sobre tom.

Gostes ou não.
É a fruta da época.
E a época é de Sol.

História triste sem final

Tenho dois irmãos e são a minha família.

O meu irmão mais velho é o Vasco.
Gosta muito de leituras.
Quando me vem ver, diz-me:
-Não digas a ninguém que estás doente. Põe-te bem, afasta a doença.
Ele diz-me isto e tem lágrimas nos olhos.

Sabe, as pessoas às vezes não sabem falar com os doentes.
As minhas amigas são velhas como eu, mas estão melhores do que eu.
Dizem:
- Fulano também tinha uma úlcera assim. Infectou de fora para dentro e teve que amputar a perna.

E eu não sou de cismas mas fiquei a pensar nisto e não consegui dormir.

O nosso irmão mais novo era piloto e foi o primeiro a partir.
Íamos visitá-lo e o Vasco dizia:
-Quando saires daqui, levo-te a um stand e escolhes o carro que quiseres. Eu ofereço-te.

Ele estava mesmo magrinho, mas o Vasco é assim. Não conseguia aceitar que ele nos ía deixar.

Já sofri muito. Casei-me e divorciei-me duas vezes com o mesmo homem.
Ele era como uma borboleta, de flor em flor.
Uma das amantes escrevia-me bilhetes. Sabia que era eu que lhe tratava da roupa.
Marcas de baton nas camisas, nas cuecas. E eu lavava.
Deixava-me bilhetes no bolso do casaco.
-Quem é a puta afinal? Eu passeio com ele, tu lavas e engomas.

Eu guardava os bilhetes. Achava que me podiam servir para alguma coisa. Um dia juntei-os e queimei-os todos.

Quando ele me deixou, casou-se com ela.

Hoje somos as duas viúvas.
E eu já fui tão infeliz. Só quero não ter dores.