terça-feira, 16 de junho de 2009
Raro menino caro
Damos de beber ao menino
E gozamos do gozo
De como é fácil
saciar a sede do menino.
O menino chora.
É manha ou fralda molhada?
E gozamos do gozo
De como é fácil
calar o choro do menino.
Menino raro
Que não é um homem
Mas um pobre rapaz-menino
Caro menino raro.
Tem joelhos turbulentos
Que denunciam
Uma infância esfolada
Raro menino caro.
Cerâmica
Sem uso,
ela nos espia do aparador."
Carlos Drummond de Andrade, Tentativa de Exploração e de Interpretação de Estar-no-Mundo"
Minina gorrda
Para o Luís.
"Esta menina gorda, gorda, gorda,
Tem um pequenino coração sentimental.
Seu rosto é redondo, redondo, redondo;
Toda ela é redonda, redonda, redonda,
E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.
É menina e moça. Terá quinze anos?
Umas velhas amigas de sua mamãe
Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo:
“Como esta menina está gorda, bonita!”
“Como esta menina está gorda, bonita!”
E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar.
Às vezes no quarto,
Diante do espelho;
Ao ver-se tão gorda, tão gorda, tão gorda,
Ela pensa nas velhas amigas de sua mamãe
E também num rapaz
Que a olha sorrindo,
Quando toda manhã ela vai para a escola:
“– Ele gosta de mim… Ele gosta de mim.
Eu sou gorda, bonita…”
E os dedos gordinhos pegando nas tranças
Têm carícias ingénuas
Diante do espelho."
Rui Ribeiro Couto
Espécie de começo
- A voz está sozinha- disse minha mãe, ainda eu estava no seu ventre, a ler-me poesia.
- Não por muito tempo- responderam àquela que me iniciava na língua. E eu nasci na sequência de um ritmo.
Eu nasci para acompanhar a voz, fazê-la percorrer um caminho. De um lado a outro do percurso, não sei o que existe,
o caminho caminha,
eu deslumbro-me quando o tempo se suspende,
e me permite parar a contemplar o espaço sem tempo. "
Maria Gabriela Llansol, Onde vais drama-poesia?
sexta-feira, 12 de junho de 2009
Delícias claustrais
e a tua gratidão pelo meu riso traduz-se em
ofertas do claustro à minha gula.
Come bolachas, rapariga
Come bolachas.
E eu recuso.
Recuso um rebolar para a redenção
num jeito de lufa que seria
menear de generosos quadris
com gosto a biscoito de côco.
Recuso.
Que freiras enclausuradas
Dêem cabo do meu projecto de
um regime quase assim
Espartano.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Política literária
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.
Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz."
Carlos Drummond de Andrade, Na Praça de Convites.
domingo, 7 de junho de 2009
Tempo de montanha
Haverá sempre um mau humor de tempestade?
Com dias assim escuros carregamos o peso do mundo nos ombros
ou somos esmagados por esse peso sobre nós?
Apetece mesmo ir para a montanha.
(Heidi rapariga das montanhas
não passa cartão aos rapazes da planície)
Noites ao relento
Estrelas, algumas cadentes
Esterco nas unhas e nenhum verniz
Cigarras pirilampos e lobos
Aaauuuuuuh
Água gelada de rio
Pedras limosas e joelhos esfolados
Mais aquela simetria
Estrada tortuosa
Campos de trigo
E o som da ondulação do vento
Cssss Csss Csss Csss
(que é igual a um estremecimento de alma)
Nada mais que isto apetece.